Transferência de abelhas sem ferrão no outono, pode?

Era meados de março quando meliponicultores do centro sul do Brasil começam a perguntar freneticamente nos grupos sobre abelhas sem ferrão se ainda podem fazer transferência de suas iscas mesmo estando no outono.

As opiniões começam a se dividir, alguns afirmam categoricamente que é melhor esperar a primavera, já outros argumentam que o manejo pode ser feito sem problemas. Começam a surgir pequenas discussões acerca do assunto.

Então deixa eu te contar o que aprendi sendo meliponicultor próximo à Serra Gaúcha, onde faz frio pra caramba… ABELHA NÃO TEM CALENDÁRIO!

Para elas importa a condição climática e não o dia do ano, muito menos a estação. Não importa se é junho ou janeiro, se o dia estiver propício elas vão sair para forragear, simples assim.

Tanto não importa a estação, que não é difícil ver enxameações acontecendo no meio do inverno após alguns dias de sol e calor acima da média. Elas não conseguem prever o futuro, elas apenas se orientam pelo clima do momento.

Então, respondendo a pergunta do título deste post, PODE TRANSFERIR SIM, desde que o clima no dia da transferência seja adequado.

O QUE É UM CLIMA ADEQUADO?

  • Dia de sol e sem vento
  • Temperatura durante a transferência na casa dos 24 graus (no termômetro e não no celular)
  • Preferencialmente que essa condição se repita no dia seguinte, mas não é um requisito obrigatório

POR QUE NÃO ESPERAR A PRIMAVERA?

  • Ao transferir você terá noção do estado do enxame para saber se precisará intervir ou não com manejos de reforço
  • Uma caixa de 4cm de espessura é um pouco melhor que uma isca de 5mm para suportar o frio
  • Se o enxame estiver com poucas reservas você pode fornecer alimentação
  • Você pode fornecer cera mista, que vai acelerar o desenvolvimento delas
  • Se o enxame for pequeno você pode colocar ele em um espaço menor ajudando na regulação térmica
  • Se o enxame estiver com poucas campeiras, você pode reforçar com discos/células de outro enxame forte do seu plantel
  • Se houver excesso de umidade o enxame pode ser atacado por forídeos ou mosca soldado e ser exterminado sem que você consiga intervir

Claro que sempre há risco, como em toda transferência, porém no meu entendimento as chances do enxame sobreviver são maiores se estiverem em uma caixa contando com meu auxílio se necessário.

Nas minhas primeiras temporadas como meliponicultor eu entrei nessa conversa de que “é melhor esperar a primavera” e perdi vários enxames que estavam em ninhos isca.

Depois que comecei a pensar de forma lógica e fazer o que está descrito nesse post essas perdas terminaram. Veja na imagem abaixo alguns registros feitos no MELIPOsys das minhas transferências “fora de época” de uma temporada (observe a coluna DATA).

CUIDADOS PARA TRANSFERÊNCIAS NO OUTONO

  • Ter à mão todo material necessário para a transferência para ser o mais breve possível
  • Não “destruir” as estruturas do ninho, tentar manter todo invólucro intacto
  • Não ficar “fuçando” pra procurar postura, rainha ou qualquer outra coisa
  • Colocar alimento (mel e pólen) na caixa, mas sem lambuzeira
  • Esperar elas reorganizarem toda estrutura interna antes de pensar em fornecer alimentação (geralmente 1 a 2 dias)
  • Usar caixa INPA com o menor número de módulos possível, espaço extra vai prejudicar a colônia
  • Se for usar caixa baú, isole a parte vazia com algum plástico por exemplo, reduzindo assim o espaço interno nesse primeiro momento

Porém eu estaria sendo muito negligente se dissesse que este manejo de transferência sempre é a melhor opção. Em algumas situações a melhor escolha será mesmo a espera por um clima mais estável, como na primavera.

QUANDO NÃO TRANSFERIR?

  • Quando a enxameação não está “no prazo”, que geralmente é de 30 a 90 dias a depender da espécie.
  • Quando você é iniciante e essa será sua primeira transferência. Nesse caso chame alguém com experiência ou então isole sua isca o máximo possível contra o frio e espere o inverno passar.
  • Quando você não tem experiência com manejos de reforço e alimentação de abelhas sem ferrão (nesse caso, ter contato com alguém experiente pode ajudar muito)
  • Quando você não sabe distinguir um enxame forte de um mediano ou fraco
  • Quando você não entende os hábitos da espécie (temperatura de trabalho, aceitação de alimentação artificial, receptividade dela para manejos de reforço, tamanho de caixa adequado)
  • Quando você não tem um termômetro de ambiente para medir a temperatura (sim, a temperatura do seu celular é diferente do ambiente real)
  • Quando você tem medo ou dó de mexer com suas abelhas

CONCLUSÃO

Você deve ter percebido, que como tudo relacionado à meliponicultura, não tem uma resposta exata e absoluta, afinal estamos falando de biologia e não de matemática.

Conseguir entender os hábitos de cada espécie e raciocinar de forma lógica em relação aos manejos e/ou decisões será um grande diferencial na atividade.

Estudar é fundamental, porém você precisa aprender observando seus manejos, acredite, esse é o melhor curso do mundo.

Dúvidas são bem vindas nos comentário…

2 comentários em “Transferência de abelhas sem ferrão no outono, pode?”

  1. Gostei muito da tua explanação. Foi sucinto e didático. O mais interessante é que me enquadro em todos os itens aqui tratados. Ontem fiz uma caixa para o ninho e outra para melgueiras, se necessário, mais tarde. Aproveito que a lua é crescente (Um velho apicultor me ensinou sobre a melhor lua) e vou tomar a iniciativa. Me falta cera mista, ainda. Obrigado por chegar em tão boa hora.

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    • Bom, eu nunca cuidei lua para fazer transferências, mas cada um tem suas crenças e costumes.
      Quanto a cera mista não é obrigatório fornecer (ou pode ser fornecida em outro momento), mas ajudará no desenvolvimento da colônia.

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