“Síndrome de março” em Mandaçaia – Relato de meliponicultor

Olá pessoal, quero compartilhar com vocês tudo que descobri/aprendi sobre a tal “síndrome de março” ou “mal de março” das abelhas mandaçaia que ocorre na região sul após as primeiras ondas de frio.

Depois de ler vários artigos, pesquisas e assistir muitos vídeos sobre o assunto consegui filtrar algumas informações que faziam mais sentido entre tantas que não tinham lógica alguma…

Obs.: não lembro nomes ou canais de onde cada informação surgiu pois foram muitas horas de vídeo assistidos e centenas de linhas de textos e artigos lidos.

Vamos ao “cerne” da questão:

Em um determinado vídeo foi falado que a tal síndrome era causada por uma toxina (talvez o nome correto não seja esse) liberada no mel por um fungo/micro-organismo que faz parte da microbiota de um enxame, essa toxina seria liberada por conta de um estresse causado nesse fungo por uma queda brusca de temperatura, e foi essa informação que fez mais sentido pra mim, explico o motivo a seguir.

Ainda era verão, final de fevereiro de 2021 (e todos os relatos davam a entender que esse fenômeno acontece sempre no início do inverno pelo motivo citado anteriormente) quando eu fiz uma transferência de uma matriz de mandaçaia que estava em uma caixa podre e deteriorada.

Como havia muito mel nessa caixa (cerca de 1 litro), eu optei por coletar o mesmo e devolver aos poucos para o enxame após a estabilização do mesmo na nova caixa. Para tal, armazenei esse mel sob refrigeração de aproximadamente 8 graus (temperatura comum no inverno aqui no RS).

Enxame estabilizado, comecei a servir esse mel via alimentador interno para o exame (antes de servir deixei voltar a temperatura ambiente apenas a porção que seria servida para a colônia), e no dia seguinte a essa primeira alimentação o chão ficou forrado de abelhas mortas que haviam sido jogadas para fora da caixa nas primeiras horas da manhã.

Em outra prateleira eu tinha uma divisão recente que precisava de reforço alimentar, então eu servi esse mel (no mesmo dia) para essa divisão… no dia seguinte a mesma situação: dezenas de abelhas mortas no chão.

Essa mortandade sempre era maior no dia imediatamente posterior em que o alimento era servido, diminuindo nos dias seguintes. Fiz então um xarope energético novo e servi no dia seguinte a uma dessas alimentações, e isso fez parar a mortandade das abelhas imediatamente, porém quando o enxame ficava alguns dias sem receber alimentação a mortandade iniciava novamente, provavelmente porque havia estoque do alimento “contaminado” e este começava a ser consumido com o passar dos dias.

Mesmo tendo evidências de que essa era a causa do problema eu resolvi fazer mais um teste e optei por “sacrificar” um enxame de Mirin a fim de tentar comprovar tudo que até então eu havia descoberto. Servi o tal mel “contaminado” para esse enxame de Mirins… dito e feito, no dia seguinte começou a mortandade das abelhas, e em questão de 3 dias o enxame estava dizimado, inclusive com a morte da rainha (nas Mandaçaias não chegou a esse extremo).

Cheguei então a conclusão que realmente o frio repentino pode causar algum tipo de alteração no mel deixando o mesmo “impróprio” para o consumo por parte das abelhas.

A solução encontrada

Agora começava outra saga: encontrar uma solução para o problema. Ouvi então em outro vídeo falarem sobre usar carvão ativado junto no xarope a fim de “purificar” o alimento e o organismo das abelhas, nesse mesmo vídeo dizia-se que esse “tratamento” estava apresentando resultados positivos há algum tempo já.

Isso fez bastante sentido pra mim já que o carvão ativado é usado (entre outras coisas) nos filtros de água para purificar e eliminar a maior parte dos ativos contaminantes da mesma.

Peguei então uma porção do alimento contaminado que eu ainda mantinha refrigerado, deixei chegar na temperatura ambiente e adicionei nesse alimento um pouco de carvão ativado (comprei um para uso veterinário em uma loja agropecuária) e em seguida servi para o enxame de mandaçaia

Para minha surpresa não houve mortandade de abelhas nos dias seguintes.

No momento em que escrevi esse texto já havia passado três semanas desde a primeira alimentação com carvão ativado e até então o problema não voltou a ocorrer. Então creio que uma possível solução para a síndrome seja servir alimentação energética com carvão ativado para os exames antes da chegada das primeiras ondas de frio, fazendo assim com que haja a “descontaminação” do alimento e dos indivíduos da colônia.

Obs.: A medida indicada é de uma tampinha de garrafa pet para cada litro de xarope energético.

Tudo que foi relatado aqui é uma experiência pela qual eu passei, não quer dizer que isso irá acontecer sempre e nem que a solução adotada seja efetiva e definitiva para toda e qualquer situação, porém o compartilhamento da experiência é válido até para fins de estudo e comparação.

Você pode também compartilhar seu relato referente a isso nos comentários, toda informação será bem vinda desde que tenha algum fundamento lógico.

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